CONVIVER NÃO É MOLE:

CONSEQÜÊNCIAS PARA A CLÍNICA DAS PSICOSES

                                                                                              Paulo Ritter (Agosto/2004)

 

   Pretendo, no que segue, defender a idéia de que devemos ir além da mera convivência nos espaços coletivos de tratamento. Por convivência, entendo o que está no dicionário: ato ou efeito de conviver, viver em comum, manter relações de proximidade. Por espaços coletivos, entendo os novos dispositivos de saúde mental surgidos no rastro da Reforma Psiquiátrica, a partir das décadas de 80 e 90, que se organizam prioritariamente numa dimensão coletiva. Incluo aqui tanto os hospitais-dia como os Centros de Atenção Psicossocial. Tratamento, por sua vez, não é tão fácil definir, mas é possível constatar, recorrendo novamente ao dicionário, que um  dos seus sentidos é  justamente  conviver, manter relações. Assim, não me parece um disparate afirmar que tratamento é um termo mais amplo que convivência. Pelo contrário, me parece interessante clinicamente manter tal sobreposição de termos. Uma sobreposição na qual um termo engloba o outro, na qual o tratamento tem, na convivência, uma de suas possibilidades.

   Antes de continuar, uma ressalva: para alguns sujeitos a convivência é o tratamento possível, e não há mal algum nisso. Apesar da diferença de amplitude dos termos, nenhuma apreciação valorativa deve recair sobre eles.

   Bom, além de convivência, dispositivos coletivos e tratamento, um quarto termo infiltrou-se sorrateiramente algumas linhas acima. Quando defendi que seria interessante clinicamente manter a distinção entre convivência e tratamento, a clínica juntou-se ao grupo dos termos que merecem uma definição mais apurada. Tal definição, no entanto, não deve ser feita agora. Deixemos em suspenso esses quatro conceitos – dispositivos coletivos, convivência, tratamento e clínica – e tomemos outro rumo para reencontrá-los mais a frente. Não esqueçamos que dispositivos coletivos e convivência estão minimamente definidos, enquanto  tratamento e clínica esperam por definição.

   Seguindo outra direção, tomo a liberdade de me utilizar de alguns consensos que já alcançamos, no campo da saúde mental, quando nos referimos aos dispositivos coletivos. Todos concordam que estes lugares, a fim de efetivamente serem operativos,  devem ser produtores de “relações, questionamentos e vida”. E é justamente este lugar comum que devemos esmiuçar,

   Vamos, então, trilhar o caminho que elas  sugerem – as palavras relações, questionamentos e vida –  e apreciar a paisagem que surge a nossa frente.. Certamente, poderíamos realizar outro percurso e vislumbrar paisagens já conhecidas: o alcance de nossa visão é conseqüência de nossas escolhas. Mas, como o viajante de Italo Calvino, acredito que devemos buscar cidades insuspeitadas que nos surpreendam com sua arquitetura improvável.

   O primeiro consenso refere-se à idéia de que os dispositivos coletivos devem propiciar relações. E essas são geradas principalmente pela convivência: relações entre os sujeitos que freqüentam o hospital-dia, entre esses sujeitos e a equipe técnica, entre os integrantes da equipe, entre os espaços físicos da instituição etc. As relações são múltiplas e diferenciadas e apontam nas mais diferentes direções, incluindo todos os que se aproximam da instituição.

   O segundo consenso diz respeito à produção de “questionamentos”. Ora, questionar é pôr em dúvida, é fazer vacilar a certeza, é tornar o certo duvidoso. Questionar é, na via de mão única da certeza, abrir novas veredas de interpretação e sentido. As questões, no cotidiano desse trabalho, são sempre abundantes. Referem-se às oficinas, aos freqüentadores da casa, às relações diferenciais que se estabelecem, às demandas, às possíveis respostas a essas demandas etc. Questionar isso tudo é a possibilidade de inventar novas respostas, que prontamente originarão mais dúvidas, num movimento permanente. Fugir dessa problematização é fugir de uma característica inerente ao trabalho que fazemos, pelo menos como o concebo.

   O terceiro e último consenso é em torno da produção de “vida”. Proponho, no entanto, que esse consenso seja deixado para o final do percurso, juntamente com a idéia de clínica.

   Assim, o que temos até agora, a partir destes consensos, é que os dispositivos coletivos possuem finalidades específicas, nos quais os sujeitos convivem entre si, estabelecendo as mais diversas relações, nas mais diversas direções, e nos quais esse próprio movimento é colocado permanentemente em dúvida, é  questionado em seu caráter de certeza.  Já temos a mão os ingredientes de que necessitamos para defender a idéia inicial, a idéia de que devemos ir além da convivência nesses lugares.

   Fazem parte do trabalho nesses dispositivos o cuidado, o acolhimento constante, o trabalho e o lazer assistidos – todas instâncias em que se dá a convivência. Para sujeitos  que enfrentaram por anos os males que certa psiquiatria pode causar, uma espécie de ressocialização permanente por meio da convivência é bem vinda. Afinal, o ponto fundamental da psicose é justamente a ruptura  dos laços sociais. Restituí-los, dentro das possibilidades de cada um, é o que podemos tentar fazer quando esses sujeitos nos procuram. No entanto, as práticas assistenciais devem ser apenas uma das faces daquilo que oferecemos. Se tais sujeitos enfrentaram obstáculos incontornáveis em suas vidas, isso se deve  a uma problemática bastante especifica. Isso se deve a impossibilidade que eles experimentaram, em algum momento, de responder como sujeitos a certas demandas. Impossibilidade que pode repetir-se a qualquer tempo. Portanto, não basta apenas oferecer aquilo que eles supostamente não conseguiram, como se essa restituição tardia aplacasse seu sofrimento e resolvesse suas dificuldades. E preciso ir além.

   E para avançar, é bom lembrar que conviver é viver com o outro, é confrontar-se com o outro em sua dimensão imaginária e simbólica. Assim, conviver é um confronto do sujeito com suas dificuldades. Se na paranóia o sujeito é invadido pelo imaginário, na esquizofrenia é o simbólico que lhe invade. Não acredito, portanto, que seja possível somente conviver, sem trabalhar com as questões que surgem desse convívio, a não ser que abdiquemos de tratar o outro como sujeito. Se o tratamos como sujeito, somos obrigados, por exigência ética, a levar em consideração sua voz e seu desejo. E ai está, me parece, a outra face daquilo que devemos oferecer em nossas instituições: a possibilidade do sujeito trabalhar frente ao outro. Então, se a convivência, num sentido amplo, é fundamental ao trabalho institucional com a psicose, os efeitos que ela produz também devem ser levados em consideração. A convivência produz laços sociais e produz transferência, justamente as condições de possibilidade do tratamento pelo coletivo. Assim, tratamento é tudo aquilo que permite ao sujeito recuperar uma competência social perdida ou construir uma competência social que nunca houve. E com essa finalidade tudo é possível: medicações, sessões de análise, oficinas, passeios, convívio, reunião de familiares, eventos externos, festas etc. E tudo o mais que nossa imaginação possa inventar.

   Se a convivência produz tantos efeitos, como encaminhá-los? Simplesmente esperar que os arranjos curativos surjam na própria coletividade, a partir de uma espécie de trama auto-resolutiva, me parece pouco. Não que o coletivo não tenha potencialidades fantásticas, mas até mesmo para aproveitá-las devemos conhecer um pouco a regra do jogo que estamos jogando. Aqui, creio, devemos lembrar do consenso a respeito da importância do questionamento. Se questionar é, como vimos, abrir novas possibilidades, o campo clínico encontra aqui terreno fértil para frutificar. Agora podemos retomar a idéia de clínica que deixamos em suspenso. A clínica, como processo permanente de invenção, está intimamente articulada com os questionamentos. É ela que pode informar para onde caminhar nos momentos em que os  caminhos são múltiplos. Nesse sentido, a instituição e seus dispositivos de tratamento, como processos em permanente construção, estão subordinados à experiência clínica e seu arcabouço teórico. Indagar, questionar o hábito, estranhar o familiar são as condições necessárias para a instauração da clínica como produção de subjetividades e sociabilidades, da clínica como criação de novos caminhos e destinos, da clínica como novas linhas de fuga.

   Por fim, é chegada a hora de retomarmos um último consenso deixado em suspenso: a afirmação de que os dispositivos coletivos devem produzir “vida”. E aí a situação literalmente se complica: a vida, diante do silêncio da morte, é complicação. Uma complicação proveniente do contexto social e  o cultural que cerca nossos serviços. Levar em consideração estes contextos  é trabalhar com o outro que nos constitui, é trabalhar com a densidade que advém das relações alteritárias. Gerar vida é gerar relação com o diferente, é sair da identidade narcísica para a relação com o outro. Se na psicose o retraimento do sujeito alcança níveis trágicos, todos precisamos sair do narcisismo para não adoecer, psicóticos ou não. Aposto na idéia de que o trabalho que efetuamos nos novos dispositivos de saúde mental tenha a capacidade de engendrar novas formas de sociabilidade, novas formas de vida. Aposto na idéia de que a clínica ampliada, no seu esforço de permanente invenção dos dispositivos de tratamento, tenha efeitos sobre  a rede social. Se a clínica é ampliada, seus efeitos também o são.

   A história da loucura nada mais é que o conjunto de respostas que a sociedade dá à loucura. Se hoje podemos dar como resposta a tentativa de transformação de seu lugar social, é porque as condições para isso estão de alguma forma no campo cultural. Engendrar um novo lugar social para a loucura equivale a modificar as relações sociais, modificação na qual as singularidades subjetivas possam apoiar-se na presença de outras.

  A saída, então, para todos nós, não só para os que necessitam de tratamento, é inventar novas modalidades de interação, novas formas de convívio; a saída é encontrar, na superação do isolamento narcísico, a terceira margem do rio. Em oposição às concepções da loucura como metáfora da desordem, como metáfora da morte ou como ausência de obra, o que os espaços coletivos de tratamento devem oferecer aos psicóticos é a possibilidade de vida. E talvez nossa ambição maior possa ser perceber que, na vida, os caminhos que se bifurcam só são possíveis a partir das limitações, das crenças e dos  desejos de cada sujeito. E dessa percepção extrair as conseqüências éticas para nosso trabalho.